Quem está deprimido não tem energia para escrever textão brega e fazer cara de choro na internet


Exibir a própria doença não a cura, só expõe o próprio narcisismo de alguém que deseja mostrar suas frustrações para ganhar likes e seguidores, além de gerar comoção

Christin Hume/UnsplashHá pessoas que exibem a própria depressão para angariar fama e likes

A depressão é o mal do século. Pessoas perdem energia vital, estímulo, sentido de vida. Não é apenas uma doença do cérebro. Ela é uma predisposição psíquica a um mal estar causado por uma realidade que se desgosta na vida ou na própria personalidade. Rejeições podem levar uma pessoa predisposta a ficar depressiva. Perdas podem levar alguém a se tornar depressivo. A tristeza do luto pela rejeição, morte ou abandono são fatos inerentes à vida. A perda de um trabalho, de um sonho, a decepção com um amigo, um filho, um parente são causas naturais de tristeza. Não necessariamente se confundem com depressão. Pessoas entram e saem de nossas vidas, assim como sonhos. Circunstâncias nos alegram e entristecem concomitantemente. Estar triste por uma decepção ocasional é da vida. Ser dominado por tristeza absoluta, infinita e de descaso com a vida é um estado depressivo.

A tristeza, bem como a perda, é parte do processo de amadurecimento. Uma personalidade vazia midiática, que explora seus sentimentos, tende a ser depressiva, por exemplo. Criar sentido absoluto de tentar lacrar e se expor a todo tempo com opiniões do momento, que não são necessariamente as suas, mas que se coadunem a modismos, pode levar uma pessoa a uma total crise existencial. E por conseguinte, à depressão. Recentemente, o youtuber Felipe Neto se disse depressivo. Postou selfie em prantos. Disse que necessitava de ajuda. Em seguida, se refestelou com a projeção midiática da doença, dizendo gastar R$ 60 mil em roupas de cama e estourar o cartão de crédito para sair da depressão. Não creio que esse método de combate à doença, sobretudo uma propaganda midiática através da propaganda do próprio consumismo vazio, seja efetivo. Existe a depressão. E, muitas vezes, existem pessoas num ciclo vicioso, que usam da própria doença (por vezes inexistente) para angariar mais fama e só pioram a situação de fãs que se encontram verdadeiramente deprimidos e caem num ressentimento ainda pior.

Quem está deprimido, em geral, não tem energia para escrever textão brega e fazer cara de choro na internet. Sou depressivo: levanto todo dia com desejo de morte e não faço estardalhaço midiático com carinha triste. Teatralizar doença mental é eticamente cafona e narcisista. Se Neto ocupasse sua cabeça com um sentido concreto de vida, em conjunto com um trabalho digno, não exporia sua depressão em conjunto com os sintomas consumistas, como se os sintomas fossem adornos patológicos a serem publicizados para ganhar likes. Criar um sentido de vida que trabalhe pelo bem estar do outro e parar de se lamentar pelo próprio ego ferido cura depressão. Forçar- se a agir em prol dos outros pelo trabalho cura depressão. Papo de autoestima ferida é narcisismo contrariado que se aproveita da própria doença.

Depressão é mal do século porque pessoas perderam o sentido do trabalho (que é trabalhar pelo bem do próximo). Pessoas se perderem em papinho de autoestima ferida. Autoestima é orgulho que se tem pelo bem que se faz ao próximo. Não existe nenhum santo deprimido na história que fez propaganda do próprio choro. Pode conferir. Outro deprimido assumido, Whindersson Nunes também recentemente diz querer colocar um fim provisório à sua carreira de comediante. Ora, o trabalho de um humorista é fazer rir. O riso é uma forma de cura da falta de sentido aparente da vida. Digo “aparente” porque o sentido de vida é claro e simples: o outro. Mais precisamente, o trabalho que se faz para ajudar o outro. Fazer o outro rir de sua vida, do sentido caricato e arbitrário de vida, é uma maneira de atenuar as dores da existência. O trabalho de um humorista que cura sua falta de sentido de vida é fazer rir. Se ele para com isso, pode começar a chorar por si mesmo e piora a situação. E deixa as pessoas sem o riso.

Se Whindersson seguisse com seu trabalho, seria uma terapia muito mais eficiente que qualquer divã em que se voltasse para dentro de si. A cura da depressão está justamente em se forçar a viver e trabalhar seu melhor talento a serviço da comunidade. Um poeta faz um poema para as pessoas, uma mãe trabalha seu afeto por seu filho amamentando-o, educando-o; um pedreiro faz uma casa para todos, um tijolo de um riso brotado na boca de alguém depressivo é um trabalho digno que ajuda o humorista triste a perceber o sentido de sua vida. O trabalho de todos é ajudar o outro. Esta é a cura simples para depressão.

Depressão coletiva é narcisismo contrariado. Depressão individual é narcisismo contrariado. Quando você se esquece de si e vive para servir, cria o orgulho por seu serviço. Não há tempo de depressão ou de tristeza infinita para quem se presta sempre a ajudar seu semelhante. Exibir a própria tristeza ou depressão não a cura. Muitas vezes, expõe o próprio narcisismo de alguém que deseja divulgar sua doença, suas frustrações, para ganhar likes e seguidores por sua terrível doença, expondo suas chagas para criar uma comoção coletiva e reverberar narcisismo contrariado coletivo. E depois sair com o lucro destes likes para comprar roupas de cama caras que ajudam a afundar mais seu sentido de vida e a se transformar numa personalidade mais vazia e depressiva ainda. Pior: este tipo de atitude não só não salva ninguém como empurra mais ainda as pessoas para o fosso do tédio existencial.

Todo mundo sofre, tem perdas, fracassos. Transformá-los em possibilidade de ajuda efetiva aos outros, reconhecendo a dor individual que se comunica com a do outro através do trabalho, é a cura simples para a depressão. Esta cura pelo trabalho não se confunde com o ressentimento partilhado coletivo que faz com que as pessoas afundem mais ainda na falta de um sentido provocado por narcisismo contrariado. Se você estiver deprimido, a terapia simples e imediata é não parar. Não se forçar a parar. Não remoer sua dor para que ela não se transforme em ressentimento, e não parar para prestar atenção a quem para e expõe suas chagas para ganhar mais likes. Trabalhe pelo outro com o melhor que você pode fazer. Só assim curará sua falta aparente de sentido de vida.

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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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